segunda-feira, 17 de junho de 2013

andar de bicicleta em Lisboa (ou pior, no Porto) #1 - Escolher a bicicleta





    (Rui Costa consegue chegar a tempo da reunião com o cliente, depois de deixar os miúdos na escola)


     Não encontrei as especificações e preço da bicicleta do Rui Costa, mas esta pode ser parecida, uma Specialized S-Works Tarmac SL4 Di2.



    6.3kg.
    8.300 euros.


    Para o empedrado e as zonas históricas, e o Rui Costa recomendamos a SPECIALIZED S-WORKS EPIC CARBON 29 XTR


    9.9KG.
    7400 euros.

    Estava a brincar. Estas nem têm descanso ou bagageira. O Rui Costa pedala com carros de apoio que lhe levam o portátil, livros ou a marmita para o almoço. Não é como nós.

    E o carbono é um material frágil, uma queda e a bina vai para o lixo. Porquê, então, começar o post  com este tipo de bicicletas? Porque vocês me irritam! Estou constantemente a encontrar pessoas que acham estranho uma bicicleta custar mais de 150 euros e depois vão de férias para o Brasil, compram iPads, pagam rendas de casa, têm filhos que precisam de ser alimentados...Comam menos bifes!

    Independentemente do que comprarem, escolham algo que tenha ou possa ter uma bagageira traseira destas (rack) e um ou dois alforges deste tipo. Essenciais também os guarda-lamas. Eu sei, não são cool, mas quando chove é que se separa o trigo do joio.


    Regularmente vejo pessoas com mochilas... As mochilas criam uma poça de suor nas costas, apertam a roupa nos ombros e impossibilitam a circulação do ar pela roupa. São desconfortáveis em tempo quente e mais pesadas do que os alforges / sacos. O Rui Costa nunca anda de mochila às costas na volta à Suiça ou no Tour, pois não? A sério, bagageira.

     Andar de bicicleta em Lisboa, se meter subidas e distâncias longas, não é fácil. Mas há boas notícias. Os holandeses podem pedalar muitos quilómetros, mas vocês, a pedalar em Lisboa, em pouco tempo ficam autênticos Lamborghinis. O Rui Costa ganhou a volta à Suiça porque muito provavelmente ia de bicicleta para a escola, lá na aldeia. Uma pessoa que pedale no Porto diariamente está certamente apta a ganhar o tour de france.  E por cada subida, há uma descida e as descidas são divertidas e quebram a monotonia.

     Quem não tem ainda bicicleta ou pensa adquirir uma nova para ir de casa para o trabalho.. esqueçam tudo que se pareça com isto...


    ou isto...

    Em mercados como o holandês desenvolveu-se uma oferta que não tem em consideração o factor vento, piso ou topografia. Mais peso por vezes significa maior conforto, robustez e estabilidade, uma vez que um quadro mais maciço absorve as vibrações e tem uma inércia maior, dando ao ciclista a sensação de estar a flutuar num barco confortável. Os selins são normalmente mais largos e confortáveis, a posição de pedalada é mais "upright", metem trezentos extras e isto é tudo muito bonito em terreno plano, mas péssimo numa cidade ventosa e acidentada como Lisboa (ou Porto) em que é útil uma posição mais desportiva. Primeiro, distribuir o peso pelos braços evita a concentração do peso todo no rabo, o que é relevante quando o piso é acidentado (os choques vão todos para a coluna) e quando percurso é longo. Segundo, para subidas ou distâncias maiores, um selim mais pequeno e rígido acaba por ser melhor, porque facilita a pedalada. E terceiro, o vento, muito vento, Lisboa é estupidamente ventosa e o aerodinamismo não é cromice.


    A decathlon tem Elops 5: pesa 20.7 kg. Notem a semelhança com o clássico acima.




    Para iniciar ciclismo de estrada ou btt, recomendo a Decathlon, mas nas urbanas acho que não têm ainda uma oferta adequada a Lisboa.
    Há modelos que nunca vi nas Decathlon de Portugal e sei que existem noutros países, por pesquisa na net. Não percebo porque a Decathlon em Portugal tem a Elops 5 que pesa 20kg, mas nunca cá vi a btwin NeWork 3:



     Pelo preço em libras, custaria 200 euros cá, o que me parece bom. Não sei o peso, mas não há de ser 20kg. Posto a foto porque isto é o tipo de "simplicidade" que me parece adequada a um commute e acessível.

     Aqui, a btwin reverside 7 deles que , a julgar pelo preço inglês, custaria cerca de 700 euros.





    É uma bicicleta que dá para touring em distâncias maiores. O nível de equipamento já seria um pouco caro e pesado demais (descanso, luz com dínamo etc). O descanso é um luxo (o Rui Costa, precisa de descanso?) e o dínamo faz mais sentido em latitudes onde há muitos dias curtos ou mau tempo, em Portugal é suficiente uma luz que se tira e põe e funciona a pilhas. Tem suspensão, o que não é exactamente um luxo, mas acrescenta kg.

    Gosto desta Treck Soho Deluxe. Foi a editor choice da bicycling.com.





    Pesa 13kg, é um exemplo de uma commuter bike perfeita. O preço deve rondar os 1.000 euros em Portugal, o que é acessível se comerem menos uns bifes. A Reverside pesa quase 17kg e esta 13kg, com travões de disco. Sim, 4kg fazem muita diferença, perguntem ao Rui Costa se ele ganhava a Volta à Suiça pela 2ª vez consecutiva se carregasse um garrafão com 4 litros de água atrás.

    Muito estilosa esta holandesa, mas queria ver as merdas a ficarem no cestinho (quanto é que aquilo pesará?!) no belo empedrado a descer...


    Esta treck deve rondar os 1300 bifes e seria a escolha do Rui Costa se ele andasse em Lisboa e se Lisboa tivesse um piso que não fosse de um país do 3º mundo. Mas há quem ande com isto que eu já vi (embora sem bagageira, porque o tuga tem a mania que é espertalhuço).


    Esta é mais barata (530 bifes), mas não deve sobreviver mais de uma semana em Lisboa se o percurso envolver empedrado, digo eu.


    Isto são bicicletas de perfil desportivo e para pisos bons. São adequadas para o Rui Costa e para quem tem um perfil desportivo, gosta de treinar durante a semana ou precisa de fazer longas distâncias.

    Aqui, outro tipo de bicicleta que eu consideraria boa para uma utilização polivalente em Lisboa com o bónus de poder andar em estradão, fazer um pouco de cicloturismo, passeios...

    Uma de montanha em alumínio, rígida, com  suspensão dianteira, pneus de estrada e uma bagageira. Excelente opção. Vejo commuters experientes com bicicletas deste tipo, adaptadas por eles próprios. Muitas vezes são bicicletas de BTT que já possuíam e que reconverteram em bicicletas de commute, como a da foto acima.

    Desdobráveis
    Recentemente tenho visto mais bicicletas desdobráveis, especialmente desde que a Decathlon  começou a vender a B'Fold.


    Não tem mudanças, nem suspensão e acho que não dá para ter bagageira. Estamos a falar de Lisboa (ou pior, Porto) e não de Paris ou Londres, mercados que certamente estão mais na mente dos engenheiros por detrás destas bicicletas e que talvez constituam 99% das vendas de bicicletas de commuting. O meu conselho e o do Rui Costa seria, caso vivam em Lisboa ou Porto, não se meterem em desdobráveis a não ser que seja mesmo necessário (e não, o critério "ocupa menos espaço, é mais prático" não conta).

    Conclusão:
    Analisem o percurso que vão fazer e pensem na compra como sendo a longo prazo, mesmo que comecem de forma gradual a reduzir os bifes. Estão a escolher algo que vos vai dar para muitos anos e no qual vão ter de confiar. É tudo uma questão de curva de utilidade.

    Boa sorte!

    Rui Costa, após mais um dia de commuting da partida à meta



    14 comentários:

    D.S. disse...

    o meu problema em relação às desdobráveis (além do preço, o preço é um grande problema) é aquilo ter tudo ar de que se vai desmontar a qualquer altura. não dá sensação de estabilidade. e as rodas minúsculas, parece-me sempre que aquilo não tem força suficiente para andar. (isto tudo admitindo que nunca experimentei uma desdobrável)

    R. disse...

    Tenho um b'twin 5, que me serve perfeitamente para os percursos que faço em cidade. Não tenho queixas.

    R.

    Tolan disse...

    DS: Eu tenho uma desdobrável, uma Birdy. A estabilidade é garantida pela suspensão completa, tem um handling muito bom e suave. As rodas pequenas dão de facto uma condução mais "nervosa" mas que acaba por ter a sua piada porque tem mais agilidade e os arranques são mais fáceis.

    Tolan disse...

    R., mas tu vais de bina para o trabalho / universidade etc.?

    Tolan disse...

    tb ofereci uma btwin 5 à Plaft para os nossos passeios na cidade :)

    R. disse...

    Para o trabalho. Não é o percurso mais fácil, mas existem piores. Também serve para passeio, se vou sozinho, mas é raro.

    R.

    Tolan disse...

    a minha mãe tb tem uma btwin5, o problema dessa é que as 21 mudanças desafinam muito (pode ser problema da minha mãe mudar mudanças em esforço e desafinar tudo). Também é um bocado pesada, mas em compensação é confortável. Eu tenho uma triban entretanto descontinuada, que custava mais ou menos o mesmo que a btwin5. Infelizmente descontinuaram-na há muito e não têm modelos equivalentes. Tem apenas 7 mudanças +1 para subidas extremas, rodas 29" muito confortáveis e um quadro ultra simples. Custava 200 e poucos euros. Fiz commute 2 anos com ela e hoje utilizo-a em Peniche quando estou lá de férias.

    R. disse...

    Desafina um pouco, sim, e o piso irregular (maneira simpática de dizer esburacado) não ajuda. Lá vou tendo que as acertar de vez em quando. Mas é pouco, pela compensação que é para mim andar pela cidade de bicla.

    R.

    D.S. disse...

    E a desdobragem e dobragem, são fáceis? Desde que vi uma senhora a levar uma desdobrável numa mala de mão num comboio que sonho em comprar uma. Mas já ouvi utilizadores a dizer que desdobráveis só vale a pena a brompton porque é a única bem feita o suficiente para ser rápida a desmontar e a aguentar vários anos. Mas mil euros é proibitivo. A experiência com a Birdy é boa?

    Tolan disse...

    Sim, dobro e desdobro em 10 segundos, é mesmo fácil depois de alguma prática. A bromptom, acho que é a mais compacta quando dobrada, mas está longe de ser a única dobrável que valha a pena. Temos a Strida, Dahon, a Birdy, a Airnimal... A bromptom beneficia um pouco do efeito "cool", hispter, um pouco como as vespas :) Nada contra, é uma bicicleta linda. No japão ou na coreia a Birdy é bastante popular, por exemplo, há clubes de utilizadores etc.

    Penso que a bromptom é boa se a parte de usar metro ou comboio for mesmo muito relevante e fizeres pequenas distâncias em bom piso. Mas não é o equivalente a uma full size bike.

    Quando escolhi, percebi que precisava de uma um bocado mais desportiva, pois ia fazer 8km com longos segmentos de empedrado e como faço btt, gosto de andar depressa. A minha birdy pesa menos, é quase tão compacta (é mais compacta que as dahons), 8 mudanças num hub nexus, suspensão completa... Com a birdy é possível fazer o mesmo que uma bicicleta de tamanho normal, conforme podes atestar neste bonito video:

    https://www.youtube.com/watch?v=mx7bPEAyF38

    Tolan disse...

    A Bromptom tem a vantagem de ser bastante mais barata que a Birdy, mesmo a versão com peças em titânio, mais leve. Hesitei, mas o "deal breaker" para mim foi a questão das mudanças, até mais do que a suspensão completa. A Bromptom tinha 3 opções de mudanças na altura, 3 mudanças em Low Range (para subidas), 3 intermédias ou 3 para velocidade.
    Ora, Lisboa é tramada e decidir isso... Tanto tenho subidas puxadas como gosto de ir a abrir nas rectas e descidas.
    Li reviews a modelos com mais mudanças da Bromptom e a coisa nao funcionava bem, porque não está no "core" daquela bicicleta (desafinava, é mais "bulky", o sistema de mudanças não era perfeito) Aquilo é para usar numa cidade tipo Londres. sem grandes extremos em que o range médio ou speed serve perfeitamente e não há constantes mudanças. Eu nos meus percursos utilizo todo o range de mudanças, da 1 à 8. Tenho uma subida quase a pique antes de chegar ao trabalho, tenho descidas e rectas em asfalto bom em que vou a 45km/h na mudança 8.

    D.S. disse...

    Sempre desconfiei que a popularidade da brompton estava um bocadinho inflacionada pela coolicidade, um bocadinho à moda da Apple. Eu faço cerca de 4 km casa-trabalho e tenho algumas subidas que não sendo a pique precisam de mudanças mais leves. Uma bicicleta sem sistema de mudanças não me inspira confiança. Mas o percurso não é acidentado, de forma que não precisaria de uma bicicleta quase-btt. Aqui uso o sistema de aluguer de bicicletas villo, que é uma pechincha (30 euros por ano, grátis todas as viagens de menos de meia-hora) e tem estações muito bem espalhadas por toda a cidade. Se bem que ao que parece as bicicletas villo são extremamente pesadas (melhor, quando mudar para uma como deve ser vou estar em vantagem). Vou analisar como deve ser as opções das desdobráveis. Muito obrigada pelos conselhos! Sendo novata no ciclismo urbano toda a ajuda é preciosa

    jack disse...

    pedalo no porto. adaptei uma btt boa (daquelas de 10 - 13 kg) à cidade, troquei-lhe os pneus de montanha por uns de estrada, mais finos e leves. fiz o mesmo com o selim e com os punhos.

    até funciona bem, tem é o inconveniente de os guarda-lamas serem desportivos e demasiado grandes.

    Vera, a Loira disse...

    Eu cá vou atravessar a Espanha de Specialized, não tão cara como a do Rui Costa, mas o bastante para mim, sou mais de empedrados e da dureza do monte,levo alforges mas no outro dia tentavam convencer-me a puxar um atrelado, 800 ou 900 Km a puxar um atrelado, ainda me disseram "Se levasses um atrelado podias levar um frigorífico", isto é mau demais, tenho que escrever um post sobre isso.